“Quando a gente dorme, vira de tudo: vira pedras, vira flor. O que sinto, e esforço em dizer ao senhor, repondo minhas lembranças, não consigo; por tanto é que refiro tudo nestas fantasias. Dormi nos ventos. Quando acordei, não cri: tudo o que é bonito é absurdo - Deus estável.” (Grande Sertão Veredas)
João era fabulista? fabuloso? fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum?
Projetava na gravatinha a quinta face das coisas, inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar, para farçar o que não ousamos compreender? Tinha pastos, buritis plantados no apartamento? no peito? Vegetal ele era ou passarinho sob a robusta ossatura com pinta de boi risonho?
Era um teatro e todos os artistas no mesmo papel, ciranda multívoca? João era tudo? tudo escondido, florindo como flor é flor, mesmo não semeada? Mapa com acidentes deslizando para fora, falando? Guardava rios no bolso, cada qual com a cor de suas águas? sem misturar, sem conflitar? E de cada gota redigia nome, curva, fim, e no destinado geral seu fado era saber para contar sem desnudar o que não deve ser desnudado e por isso se veste de véus novos?
Mágico sem apetrechos, civilmente mágico, apelador de precípites prodígios acudindo a chamado geral? Embaixador do reino que há por trás dos reinos, dos poderes, das supostas fórmulas de abracadabra, sésamo? Reino cercado não de muros, chaves, códigos, mas o reino-reino? Por que João sorria se lhe perguntavam que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava menos a resposta que outra questão ao perguntante? Tinha parte com... (não sei o nome) ou ele mesmo era a parte de gente servindo de ponte entre o sub e o sobre que se arcabuzeiam de antes do princípio, que se entrelaçam para melhor guerra, para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar.
(publicado originalmente no Correio da Manhã, em 22/11/1967, três dias após a morte de Guimarães Rosa)
Gracias a la
Vida que me ha dado tanto me dio dos luceros que cuando los
abro perfecto distingo lo negro del blanco y en el alto cielo su fondo
estrellado y en las multitudes el hombre que yo amo.
Gracias a la
vida, que me ha dado tanto me ha dado el oido que en todo su ancho graba
noche y dia grillos y canarios martillos, turbinas, ladridos, chubascos y
la voz tan tierna de mi bien amado.
Gracias a la Vida que me ha dado
tanto me ha dado el sonido y el abedecedario con él las palabras que
pienso y declaro madre amigo hermano y luz alumbrando, la ruta del alma
del que estoy amando.
Gracias a la Vida que me ha dado tanto me ha dado la marcha
de mis pies cansados con ellos anduve ciudades y charcos, playas y
desiertos montañas y llanos y la casa tuya, tu calle y tu
patio.
Gracias a la
Vida que me ha dado tanto me dio el corazón que agita su
marco cuando miro el fruto del cerebro humano, cuando miro el bueno tan
lejos del malo, cuando miro el fondo de tus ojos claros.
Gracias a
la Vida que me ha
dado tanto me ha dado la risa y me ha dado el llanto, asi yo distingo
dicha de quebranto los dos materiales que forman mi canto y el canto de
ustedes que es el mismo canto y el canto de todos que es mi propio
canto.
Gracias a la Vida Gracias a
la
Vida Gracias a la Vida Gracias a
la Vida
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